Em Pensalvos

  Vila Pouca de Aguiar

Padre “revolucionário”... Páscoa diferente

Ontem de manhã era difícil encontrar em Pensalvos um lugar onde se pudesse estacionar um carro. Isto porque centenas de pessoas de outras aldeias ali acorreram para presenciarem ao Auto do Dia de Ramos, marcado para as 10h00.
Enquanto os paroquianos se iam aglomerando, cada qual com o seu ramo de oliveira na mão, o padre Manuel Sequeira Teles ia dando as últimas instruções aos “actores”. E aproveitava para explicar o “guião” aos repórteres gráficos.
A “peça” iniciou-se com a representação da Última Ceia de Cristo. Um recanto ajardinado do adro da igreja serviu de Monte das Oliveiras. As cenas seguintes representaram-se num estrado montado no recreio da escola primária.
Por fim, o pároco rezou missa. O azul do céu iluminava o dia, os ramos das oliveiras nas mãos dos crentes anunciavam fé.
Que justificação dá o padre Manuel Teles para a “sua” Páscoa? “O Evangelho, quando lido, é uma coisa. Quando vivido e participado, é outra”, explica. E acrescenta, antes de nova pergunta: “O catolicismo precisa de ser reavivado. Os jovens, para estarem em contacto com Deus não precisam de estar entre quatro paredes e debaixo de um tecto [da igreja]”.

“Cristo não se compra”

As atitudes “revolucionárias” do padre Manuel Teles surpreendem mais os forasteiros que os seus paroquianos, já habitados a ouvi-lo dizer, na missa, que “Jesus foi um revolucionário que enfrentou os tiranos e os ditadores”. Por isso também não se admiram que, no dia de Páscoa, o seu pároco não encabece o cortejo que benze as casas. Isto porque, segundo ensina Manuel Teles, “as casas já estão benzidas”. “portanto não há [necessidade] da caldeirinha nem do padre. São os paroquianos que se visitam uns aos outros, anunciando a ‘Alegria’ e desejando-se boa Páscoa”. E remata, para que dúvidas não fiquem: “Na Páscoa da minha paróquia não há envelopes [peditório]. Aqui Cristo não se vende nem se compra!”.

“Revolucionário” e... diferente

O padre Manuel Teles tem 74 anos e é natural da Régua. Acabado o seminário esteve três anos a meditar se deveria seguir ou não o sacerdócio. Seguiu. E foi também professor e sub-director do seminário do Fraião, em Braga. Devido às suas ideias libertárias foi expulso do cargo. Depois, por causa de um artigo que escreveu num jornal da Régua, chegou a ser detido, embora por apenas meia hora. Tudo porque classificou os bailes de “caridade” das meninas das “boas” famílias de “Linda carpete em cima de estrume”.
Queria ser missionário em África mas nunca lhe deixaram cumprir esse sonho. Foi para Pensalvos há 15 anos. E ali, entre as suas “diabruras”, não cobra sacramentos [funerais, baptizados, etc.] aos seus paroquianos. “Não preciso. O que recebo da minha reforma de professor bem me chega”.
Quem com ele convive tanto é capaz de o ver a pintar os portões da igreja como a tecer considerações “pouco católicas” sobre o papa. “O Vaticano está muito longe e, por isso, não tem possibilidade de se aperceber das coisas pequenas nem de acompanhar a evolução dos tempos actuais”, diz o pároco transmontano. Mas, sobre a Igreja em Portugal, já tem ideia melhor. Tece elogios à postura de D. Policarpo, cuja modéstia se nota até pelas vezes que usa o solidéu, em detrimento do “pomposo” mitral.
Mas o padre Manuel Teles não é apenas conhecido nos meios eclesiásticos. Foi dirigente desportivo e presidente do conselho técnico da Associação de Futebol de Vila Real, bem como delegado técnico da Federação Portuguesa de Futebol.
Além disso é sócio do clube de golfe de Vidago, onde, por vezes, vai dar “umas mocadas”.
Reside na vila das Pedras Salgadas, a uns quilómetros da sua paróquia. “Assim, estando longe, o meu povo adora-me. Não conhece os meus defeitos”, esclarece, com ironia.

publicado por rita às 12:38